Supercopa do Brasil é um supertítulo
Torcida do Corinthians fez a festa
A Final Única da Libertadores, disputada desde 2019, gerou muita polêmica quando foi anunciada. A “Última Final” em dois jogos foi entre Boca e River, a primeira e única entre clubes argentinos. Esse formato de ida e volta também forçava um triste cenário, que se tornou comum na América do Sul, de torcida única.
Não quero aprofundar nas causas que levaram o futebol a adotar esse modelo, mas adianto que pouco tem a ver com violência e muito tem a ver com o percurso que o Flamengo já percorreu nos últimos 10 ano3s de maneira deliberada.
Quando disse no subtítulo que a torcida corinthiana fez a festa foi no sentido duplo mesmo. Não só comemoraram o que chamo de um supertítulo como também foram responsáveis por fazer o espetáculo nas arquibancadas. Tivesse o resultado em campo sido oposto, talvez esse debate não seria, mais uma vez, pauta.
A primeira vez que isso ganhou projeção foi após o título da Libertadores do Palmeiras, em 2021. Naquele jogo em Montevidéu, o Flamengo levou uma proporção de torcedores muito maior, mas essa ampla maioria no Estádio Centenário foi silenciada por “outro bando de loucos”, naquela oportunidade, alviverdes.
O debate, naquela época, foi silenciado pela fábrica de memes que contaminou tudo, da política ao futebol, da culinária à ciência. O tal “vento” que apontou Mauro Cezar Pereira, na verdade, foi um elogio à torcida palestrina que, segundo o jornalista, se movimentou nos bastidores, articulando com barras bravas locais, para entender as condições e, logo, ficar posicionada à direita das cabines de TV, foi o vento joga a favor daquele lado, favorecendo a acústica pros torcedores ali presentes no amplo estádio uruguaio. Se houve ou não essa interferência, é outra questão.
Que me conste, ele não defendeu que a torcida do Flamengo tenha cantado “de igual pra igual” naquela ocasião, mas que o “vento” ajudou a minoria palestrina a silenciar a maioria rubro-negra. Ajudou? Sim. Mas não foi a única razão.
A razão estava muito mais no perfil de quem viajou até a capital uruguaia do que no vento. E foi exatamente isso que aconteceu na Supercopa de 2026, que colocou frente a frente as duas maiores torcidas do Brasil, cujos times foram campeões dos principais títulos nacionais de 2025, num “tira teima”, uma oportunidade única de se medirem, uma diante da outra, em campo neutro, suas paixões em decibéis.
O campo neutro, assim como em Montevidéu, foi o palco perfeito, equidistante das respectivas cidades de cada clube.
E o que se viu no Mané Garrincha foram duas verdades irrefutáveis:
Final Única não somente não é o monstro que falavam quanto se provou um espetáculo singular de duas torcidas dividindo o estádio com recorde de público.
A Supercopa é incrível e só no Brasil tem esse caráter mágico de supertítulo.
Voltando à política que o Flamengo adotou de maneira deliberada, muito tem a ver com “se tornar o Real Madrid das Américas”. O Santiago Bernabéu não coloca medo porque a atmosfera é assustadora, muito pelo contrário, o peso é muito maior para os próprios jogadores merengues do que para os adversários. O estádio madridista impõe um receio único porque se trata da casa do clube mais rico do Planeta Terra e isso faz muita diferença.
O Flamengo já é o clube mais rico das Américas e está caminhando para se impor como o maior campeão do continente. O Rubro-Negro empatou com River Plate e Estudiantes, com quatro títulos da Libertadores e pode igualar o Peñarol, com cinco, se vencer a edição de 2026. Depois precisará igualar o Boca Juniors, que detém seis troféus, e o Independiente, com sete taças.
Dado o poderio financeiro do clube carioca, é possível (porém improvável) que, em 2029, o Flamengo se torne octa-campeão da Liberta. Mas existe algo em que o “Mais Querido” está ficando pra trás ao priorizar as receitas em lugar de torcedor que é uma platéia em vez de torcida. É o dinheiro, ao invés da festa. A selfie por sobre o bumbo e a bandeira. E sim, com isso, um time melhor ano a ano. Foi assim que o Real Madrid se tornou tão temido com um estádio tão esterilizado, enfileirou Champions desde 2014 e não para de aumentar o seu faturamento, que permite contratar um novo Mbappé por temporada. Já o Fla, acabou de trazer Paquetá por € 40 milhões sem que isso comprometa em nada as suas finanças.
O Flamengo apostou pesado nesse modelo — com sucesso — e só cresce. Tanto dentro das quatro linhas quanto na sua conta bancária. Mas nas arquibancadas, a festa mesmo quem fez foi a torcida alviverde em 2021, a alvinegra em 2026…
A crítica neste texto se estende a vários dos considerados grandes clubes brasileiros que só escolhem modelos mais populares por falta de opção (casos de Vasco e São Paulo, por exemplo que dispões de “equipamentos”, ou seja estádios, antigos) ou por conveniência política de momento (casos de Corinthians, Grêmio e Inter). Todos, absolutamente todos, quando podem jogam o mesmo jogo do Flamengo, jogam, sem nenhum pudor essa liga inevitável do “Moneyball”. Não existe alternativa, essa é a liga a ser jogada. Resíduos de outrora e romantismo só existem por pura falta de competência técnica. Se você acredita num outro futebol possível, sinto te informar é melhor procurar um time de Série B, e olhe lá, pois esses almejam um lugar nessa mesma liga dos grandões.
A única liga que o Flamengo não jogou ainda, mas deixar joga, é a da torcida única. Essa liga foi inventada sob a desculpa cafajeste de coibir a violência nos estádios para ampliar as receitas de bilheteria dos clubes mandantes. Todo mundo acatou e viu seus times jogarem pra ambientes cada vez mais “higienizados”, com “mais segurança”, mais torcida de classe média disposta a pagar sempre mais e, tirando o torcedor, esse que carrega o bumbo, o bandeirão, que viaja de ônibus até Brasília e faz a festa.






Texto abrangente com excelente análise das questões extra-campo.