Clube dos 12?
Como o Brasileirão se tornou um campeonato das 12 maiores torcidas do País
No texto anterior, tracei uma perspectiva sobre os títulos do Brasileirão e como o sistema de pontos corridos levou a uma concentração exclusiva dos campeões no Sudeste, descaracterizando assim o teor nacional da competição. Entretanto, olhar somente para os campeões restringe a análise e as conclusões ficam pouco abrangentes no que diz respeito ao futebol brasileiro como um todo.
É indiscutível que numa competição disputada por pontos corridos o melhor e mais regular ao longo das 38 rodadas vai prevalecer. Essa disputa vai ficar restrita, porém, àqueles clubes que podem montar plantéis caros. Os melhores jogadores reunidos e comandados por um treinador à altura vão sempre apresentar resultados superiores ao de times com atletas medianos com um técnico medíocre, e isso no longo prazo — em outras palavras, 38 jogos — é implacável.
Para se montar um elenco capaz de prevalecer no final das 38 rodadas é necessário que um clube disponha de um orçamento correspondente com os salários dos melhores jogadores. E esse orçamento não vem do além. Sem considerar investimentos aleatórios, como nos casos de Manchester City e Chelsea, em que os respectivos donos despejaram cifras capazes de montar potências dentro de campo, um clube futebol dispõe basicamente de três fontes de arrecadação: bilheteria, patrocínio e direitos de TV. Essas três receitas respondem a uma única matriz: torcida.
Uma torcida se desenvolve através de décadas e é muito difícil determinar uma única razão pela qual tal clube possui mais seguidores do que outros, apesar de uma ou outra explicação, no final das contas, tudo é bem caótico e aleatório. Um gol específico pode determinar um título, que deriva em uma seqüência vencedora em um determinado momento histórico e isso ter levado à geração de uma imensa massa de torcedores. Cada caso é um caso, mas o fato é que ao longo da história, desde os inícios do futebol no Brasil, as 12 principais torcidas do País foram formadas e, como visto, esses processos obedeceram a questões econômicas e demográficas.
Na newsletter anterior, vimos, em resumo, as razões pelas quais os clubes do sudeste são mais ricos e, logo, historicamente mais vencedores que os clubes das demais regiões do País. Esses clubes tendem a ser oriundos das três maiores cidades do Brasil, à exceção de Santos e Guarani, mas que estão na “órbita” da maior região metropolitana e capital financeira e industrial do Brasil, a grande São Paulo. Campinas e Santos estão num raio de menos de 100km da capital paulista, sofrendo influência direta e sendo parte do fluxo econômico do estado mais rico da União.
O raio-x dos vices
Quando colocamos a lupa nos clubes que terminaram em segundo lugar na disputa pelo principal título nacional ao longo da História, vemos resultados muito parecido com aquele dos campeões e isso está longe de ser uma coincidência, senão, um reforço da imposição econômica nos aspirantes a levantarem o troféu do Brasileirão.
Levando em consideração as edições posteriormente convalidadas pela CBF e também a de 1987 que o STF determinou como único campeão o Sport Club do Recife, até 2002, em 12 ocasiões de 48 (ou seja: 25%), os vice-campeões foram clubes de fora do Sudeste.
Um número baixo quando contrastados com as os 40,9% (nove oportunidades em 22) em que o vice-campeão não foi um clube da região sudeste no sistema de pontos corridos. Parece um paradoxo, certo?
No entanto, outros dois fatores precisam ser levados em consideração:
1) Mesmo excluindo o Guarani pelos mesmos motivos apontados acima que justificam a conquista do título nacional do clube campineiro, em 1978 — o Bugre terminou em segundo lugar duas vezes (1986 e 1987) —, é importante perceber que também houve a presença de quatro clubes considerados “não-grandes” do Sudeste entre os vice-campeões brasileiros em cinco oportunidades, quando a fórmula de disputa era o mata-mata. Chegaram à final: São Caetano, duas vezes (2000 e 2001); Portuguesa (1996), Bragantino, muito tempo antes da Red Bull comprar o clube (1991); e Bangu (1985).
2) Em todas as vezes que um clube de fora do Sudeste terminou em segundo lugar, o clube em questão era do Sul do Brasil é majoritariamente do Rio Grande do Sul: Internacional, cinco vezes; Grêmio, três; e Athletico, uma. A região metropolitana de Porto Alegre é a quinta mais populosa do País, atrás de São Paulo, Rio Janeiro, Belo Horizonte e do Distrito Federal, porém o entorno de Brasília não dispõe de um clube cuja população abrace como seu, algo totalmente oposto ao caso de Porto Alegre e de todo o Estado do Rio Grande do Sul onde a população se divide, praticamente, em dois clubes. Curitiba tem uma população inferior à capital gaúcha, Fortaleza e Recife, porém o PIB do entorno da capital paranaense é inferior somente ao de Porto Alegre, e essa força econômica do entorno da cidade dá uma vantagem competitiva ao Athletico e ao Coritiba com relação aos demais clubes do País.
Tendo esses dois fatores como balizadores, é possível afirmar que os clubes do Nordeste só podem sonhar com um título ou com vice-campeonato em disputas por mata-mata?
Ao que tudo indica sim, mas é preciso olhar para a Copa do Brasil também.
Na segunda competição mais valiosa do País, os clubes do Sudeste dominam com 21 vice-campeonatos entre 1989 e 2025 (56%). Esse domínio é ligeiramente inferior ao observado anteriormente no Brasileirão por pontos corridos (59,1%), mas, outro aspecto que também precisa ser observado é a menor concentração de clubes que chegaram à final: foram 20 agremiações diferentes que alcançaram a decisão da Copa do Brasil mas que saíram derrotadas, contra 10 que terminaram na segunda colocação dos pontos corridos entre 2003 e 2025.
Nas 48 edições do Brasileirão decidido por mata-mata, 22 clubes diferentes chegaram à final, o que leva a concluir que, analisando tanto o campeonato brasileiro quanto a Copa do Brasil é que o sistema de disputa por playoff é responsável por oxigenar a competição entre os clubes, permitindo que o poder financeiro tenha uma influência inferior em comparação com o modelo de pontos corridos.
Se as duas primeiras posições forem combinadas e contratadas entre, por um lado das competições decididas por mata-mata e, por outro, de pontos corridos, fica ainda mais gritante o domínio histórico dos intitulados grandes clubes Sudeste, mas ao mesmo tempo, é possível enxergar uma clara diferença.
Se no sistema de liga somente os clubes do Sul do País conseguem furar a bolha e terminar na segunda posição, em playoffs, aparecem muito mais clubes que atingem as duas primeiras posições nos campeonatos de âmbito nacional, reforçando a lógica econômica implacável no futebol.
Mas calma, não nos antecipemos. A Copa do Brasil já foi muito mais “democrática”. Os resultados recentes, desde que os clubes envolvidos na Libertadores voltaram a disputar a competição, mostram que há muito menos espaço, ou quase nenhum, para os clubes de fora do “Clube dos 12”, mas essa análise fica para uma futura newsletter.
Essa leitura envolvendo os vice-campeões amplia o entendimento sobre os resultados finais das principais competições nacionais ao longo da História. As conclusões são quase que óbvias: os principais clubes do Sudeste dominam avassaladoramente o topo do futebol brasileiro não importa qual seja o sistema de disputa ao mesmo tempo que no sistema de mata-mata o espectro é significativamente ampliado quantitativa e relativamente quanto às regiões dos clubes. Entretanto, ao longo de 38 rodadas o Brasileirão se provou uma competição restrita às ambições das 12 maiores torcidas do País.
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