A “Copa do Sudeste”
Como o Brasileirão de pontos corridos excluiu os clubes de outras regiões
Desde 2003, o Campeonato Brasileiro é disputado no formato de pontos corridos: todos contra todos, em jogos de ida e volta (turno e returno). A partir de 2006, o número de participantes foi fixado em 20 equipes.
2025 foi a vigésima edição com este mesmíssimo sistema de disputa. Há vários benefícios nesse sistema, a começar pelo lado comercial: um calendário extenso permite preencher a grade das transmissões com um número igual de partidas para cada participante. Esportivamente, os clubes conseguem se planejar melhor — em tese, claro.
Em 2026, porém, pela primeira vez, o campeonato não começou no meio do primeiro semestre, mas sim no início do ano. Antes, as janelas de transferências internacionais, tanto de chegadas quanto de partidas, ficavam descasadas com os turnos da competição. As transferências internas também obedeciam a outra lógica, diferentemente das principais ligas da Europa, que já adotam o sistema de pontos corridos há muitas décadas.
Contudo, o grande feito para o futebol brasileiro a partir de 2003 e, finalmente, em 2006, foi a seqüência inédita de um mesmo formato por tanto tempo. Desde o início oficial, em 1971 — incluindo as edições posteriormente reconhecidas, como a Taça Roberto Gomes Pedrosa, a Taça Brasil e o Troféu dos Campeões de 1937 —, pouquíssimas foram as vezes em que o sistema ou o número de participantes se repetiram.
O número de times no Brasileirão chegou a 94 clubes em 1979 e, posteriormente, a 116 equipes na edição de 2000, que ficou conhecida como Taça João Havelange. Mas, voltando aos pontos corridos: desde 2003, incluindo a edição de 2026, 46 clubes disputaram a Série A, distribuídos por 25 cidades das cinco regiões do País. Entretanto, quando o assunto é título, somente clubes do Sudeste venceram a competição desde a adoção deste formato.
Antes de 2003, com diferentes regulamentos, o Nordeste viu o EC Bahia sagrar-se campeão duas vezes (1959 e 1988). O Sport, reconhecido judicialmente pelo STF como único campeão de 1987, é o outro clube nordestino a vencer um nacional — apesar do imbróglio factual envolvendo essa edição, que merece sempre um capítulo (ou livro) à parte.
Da região Sul, quatro clubes chegaram à glória nacional: Internacional, três vezes (1975, 1976 e 1979); Grêmio, em duas ocasiões (1981 e 1996); Coritiba e Athletico, uma vez cada (1985 e 2001, respectivamente). De resto, somente clubes do Sudeste levantaram o troféu. Nenhum clube do Norte ou do Centro-Oeste teve êxito no certame.
Se olharmos para todo o período anterior aos pontos corridos, chegamos à seguinte distribuição: das 47 edições disputadas, três foram vencidas por clubes do Nordeste (6,38%); sete por emblemas do Sul (14,89%); e o restante (78,73%) por agremiações do Sudeste — sendo 23 títulos para o estado de São Paulo (48,94%); 12 para o Rio de Janeiro (25,53%); e três conquistas mineiras (6,38%).
Comparando com o período posterior a 2003, o Brasileirão passou a ser muito menos “nacional” do que já era. A título de curiosidade, seria valioso incluir na análise a Copa dos Campeões (2000-2002). Embora jamais reconhecida como título brasileiro, ela registrou um campeão do Norte, o Paysandu, enquanto os demais títulos ficaram com Palmeiras (2000) e Flamengo (2001), reforçando a supremacia regional.
Esse domínio tem duas razões interligadas: História e Economia.
Em resumo, a economia do Sudeste ganhou proeminência a partir do Ciclo do Ouro, no século XVIII, acarretando a transferência do centro político para o Rio de Janeiro. Posteriormente, a chegada da Família Real, que acabou com o “Pacto Colonial” e elevou o Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves, sedimentou o desenvolvimento da região, culminando no Ciclo do Café, em especial na província de São Paulo.
Considerando a demografia, a relação entre títulos e economia fica nítida, sobretudo no eixo Santos-Campinas, com a capital paulista ao centro — o que explica os títulos de Santos e Guarani.
Os primeiros títulos do Santos podem ser explicados de maneira simplória: Pelé. Mas para que Pelé pudesse permanecer e conquistar tanto, a economia foi determinante. O fato de Santos ter o maior porto do País, ser o balneário mais próximo à maior cidade do Brasil e nela poder jogar, permitia ao Peixe o trunfo de contar com o melhor do mundo. A partir desse legado, os títulos posteriores (2002 e 2004) foram possíveis graças a uma das 12 grandes torcidas nacionais construídas ao longo do século XX.
A proporção dos títulos obedece diretamente às demografias. A região metropolitana de São Paulo tinha mais de 8 milhões de habitantes no Censo de 1970; o Grande Rio, 6,8 milhões. Na mesma época, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre orbitavam os 1,6 milhão. Salvador e Fortaleza somavam pouco mais de 1 milhão. Curitiba contava com 800 mil e Belém superava 650 mil.
Com o tempo, esses números sofreram grandes mudanças e delineavam exatamente o poderio esportivo. Cidades maiores significavam mais torcida nos estádios, impactando diretamente as finanças, que dependiam de mensalidades e, preponderantemente, bilheteria.
Trinta anos mais tarde, o PIB tornou-se a régua exata. O futebol surgiu num Brasil pré-industrial, popularizou-se na Era Vargas e chegou aos anos 1980 com novos horizontes: a TV projetava as camisas para além dos estádios e os patrocínios mudaram o jogo. As marcas passaram a pagar cifras correspondentes à popularidade de cada escudo.
A Copa União de 1987 simbolizou o marco do marketing esportivo, com quase todos os clubes patrocinados pela Coca-Cola e jogos transmitidos ao vivo. Quis o destino que essa edição ficasse marcada por um imbróglio desnecessário, mas inevitável, dados os atores envolvidos.
Nessa época, a arrecadação dos clubes ganhou uma injeção de receitas extras. Se antes a diferença entre grandes e pequenos era sensível, nas décadas de 1980 e 1990 ela virou uma cisão. Uma ruptura camuflada, momentaneamente, pelo formato de mata-mata, mas que a longo prazo se mostrou implacável.
Independentemente do viés, 1987 mostrou tudo: patrocínios, apelo midiático e um mata-mata que coroou tanto o clube mais rico quanto um clube nordestino. É exatamente isso que o sistema de playoffs propicia: nem sempre o melhor time vence — embora, quase sempre, os melhores ganham.
De acordo com o livro Soccernomics, de Stefan Szymanski e Simon Kuper, há uma inquietude no comparativo entre modelos: especialistas em futebol americano sabem que o campeão do Super Bowl não é, necessariamente, o melhor time, mas nem por isso mudam o sistema. Por quê?
Do outro lado, a Premier League consolidou a idéia de sucesso pela popularidade global, embora poucos times possam ser campeões. Desde 1992, houve apenas sete campeões diferentes, incluindo apenas duas “zebras”: Blackburn (1994/95) e Leicester City (2015/16). No modelo inglês, para ser campeão, é necessário investir bilhões. Chelsea e Manchester City só sentaram na seleta mesa porque seus respectivos donos “compraram” um assento. Roman Abramovich gastou mais de € 1 bilhão nos Blues; o Sheik Mansour, desde 2008, despejou mais de € 1,8 bilhão no City.
Das 32 franquias da NFL, metade já foi campeã pelo menos uma vez no mesmo recorte temporal. Embora não seja ideal comparar modalidades diferentes, o contraste serve para questionar modelos de negócio e competitividade, afinal, se existe um país que entende de entretenimento e negócios no esporte é justamente os EUA. Os empresários milionários, donos das franquias das principais competições por lá, não adotariam um sistema de disputa que prejudicasse o negócio que eles possuem.
Para tanto, se o número de campeões da Premier League for comparado aos da FA Cup no mesmo período (1992/93 a 2024/25), as conclusões facilitam: 10 torcidas diferentes celebraram a Copa contra sete que venceram a Liga.
O Manchester United, mesmo sem conquistar nenhum título desde a temporada 2012/13, concentra 13 títulos. Não é coincidência que, durante todo a Era Premier League, seja o clube com o maior faturamento da Inglaterra.
O apêndice citando a Inglaterra e a NFL mostra por que o Brasileirão se tornou uma verdadeira Copa do Sudeste. Embora nacional no nome, apenas clubes de uma região específica podem, hoje, sonhar com o título. Os pontos corridos beneficiam clubes com maior poder econômico, capazes de manter elencos para 38 jogos.
Basta olhar para a Copa do Brasil: disputada desde 1989, ela já teve 17 campeões diferentes. Até 2025, a distribuição regional é muito mais próxima à do Brasileirão pré-pontos corridos: 27 títulos para o Sudeste (72%), nove para o Sul (24,3%) e um para o Nordeste (2,7%).
Fica evidente que o sistema de pontos corridos permite uma imposição financeira sobre a aleatoriedade esporádica do mata-mata. Clubes mais ricos, oriundos de regiões populosas e economicamente desenvolvidas, sempre vão preponderar.
O sistema de disputa é um dos componentes dessa elitização regional; a distribuição dos direitos de TV é outro papel determinante, mas esse assunto fica para uma próxima newsletter.
Quem lê Corner sabe das coisas.
leiacorner.substack.com
Não se esqueça de seguir o novo perfil da Corner no Instagram:

















